«Tu envelheceste, e eu ainda sou um águia», disse-me o meu marido durante o jantar. E naquele momento percebi que não podia continuar a viver assim

«Tu envelheceste, e eu ainda sou um águia», disse-me o meu marido durante o jantar. E naquele momento percebi que não podia continuar a viver assim 😢

Eu e Artur estamos juntos há mais de trinta e cinco anos. Quando se vive tanto tempo com uma pessoa, deixa-se de esperar fogos de artifício. O casamento torna-se um hábito, como um móvel antigo. Sempre achei que, nesta idade, o mais importante fosse o respeito e a tranquilidade.

Tenho cinquenta e cinco anos. Cuido de mim. Não porque tenha medo da idade, mas porque assim me sinto bem. De manhã faço exercícios, uso cremes, maquilho-me com cuidado, sem exageros. Uma vez por mês vou ao cabeleireiro, cubro os cabelos brancos, faço manicure. Trabalho como economista, mantenho a casa limpa e cozinho bem.

O meu marido tem cinquenta e oito anos. É um homem comum da sua idade. Não bebe, trabalha, traz dinheiro para casa. Mas ultimamente algo mudou nele. Começou a olhar-se mais no espelho, a encolher a barriga, a comprar camisetas de jovem e como se procurasse em si aquele rapaz que já não é há muito tempo.

Naquela noite pus a mesa. Assei carne, preparei a salada favorita dele, tirei os cogumelos. Comíamos e falávamos de conhecidos.

Então ele lembrou-se de um amigo nosso que se casou com uma mulher duas vezes mais nova. Eu disse que aquilo parecia estranho e até triste. Mas Artur de repente exaltou-se e começou a falar da natureza, da frescura masculina e de que um homem, com a idade, só fica melhor e mais jovem.

Depois olhou para mim com atenção, sem gentileza, e disse:

— Já reparaste como envelheceste muito?

Pedi que repetisse, porque a princípio não acreditei que ele estivesse a dizer isso em voz alta.

E ele, sem parar, começou a enumerar:

— Tens rugas à volta dos olhos. O pescoço já não é o mesmo. A cintura alargou. Antes eras mais leve, mais viva. Agora estás… doméstica. Uma tia. Fazes tudo certo, mas sem chama.

Depois acrescentou, como se estivesse a concluir:

— E eu ainda sou um águia. Um homem, com a idade, só melhora. Tenho experiência, carisma. Aliás, as jovens olham para mim.

Dentro de mim algo estalou. Percebi que tinha de explicar coisas básicas a um homem de cinquenta e oito anos 😢☹️ A continuação da minha história e o que fiz contei no primeiro comentário 👇👇

Levantei-me da mesa em silêncio e disse:

— Levanta-te.

Ele ficou surpreendido, mas seguiu-me até ao hall. Levei-o até um grande espelho com luz forte e coloquei-me ao lado dele.

— Já que o assunto veio à tona, vamos ser sinceros — disse eu. — Olha com atenção.

Olhei para o reflexo dele e comecei a falar calmamente, sem gritar.

— Vês essa barriga? Isso não é solidez nem estatuto. É cerveja à noite e o eterno “depois começo a fazer exercício”. Encolhes por cinco segundos e depois ela volta a sair.

Ele quis dizer algo, mas continuei.

— Falas das minhas rugas. Sim, elas existem. Agora olha para as tuas olheiras. Dá para guardar batatas nelas. É do “carisma” ou do salgado à noite?

Apontei para o rosto dele.

— A pele está acinzentada, o ar cansado. Os joelhos doem, as costas incomodam, és tu que separas os comprimidos na mesa de cabeceira. E eu meço a tua pressão não é por diversão.

Ele ficou em silêncio, a olhar para o espelho.

— E diz-me com sinceridade — acrescentei. — Quem precisa de ti assim? Uma rapariga que vai ouvir as tuas queixas das costas e lembrar-te dos remédios? Achas mesmo que as jovens olham para ti com desejo, e não a pensar: tomara que o meu pai nunca fique assim?

Ele ficou vermelho e baixou os olhos.

— E se alguma olha — disse eu mais baixo — é por interesse ou por engano. Mas o interesse aqui é fraco. Não somos milionários. Por isso, desce à terra, águia.

Ele ficou muito tempo em silêncio, depois disse baixinho que estava a brincar. Que falou sem pensar. Que eu era a mais bonita para ele.

Eu não respondi nada.

Porque depois de palavras assim, já não se trata de elogios. Mas de saber se a pessoa com quem viveste toda a vida realmente te respeita.

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